Produção paraibana vence a Competição Oficial de Curtas-Metragens do 35º Festival Biarritz Amérique Latine, garante aquisição pela France Télévisions e terá exibição especial na Cinémathèque Française, em Paris.
O curta-metragem paraibano “Caso Isolado” (2026), escrito e protagonizado por Jamila Facury e codirigido pela realizadora ao lado de Edson Lemos Akatoy, conquistou o Abrazo du Meilleur Court-Métrage, principal prêmio da Competição Oficial de Curtas-Metragens do 35º Festival Biarritz Amérique Latine, realizado entre 26 de setembro e 2 de outubro de 2026, na França. Reconhecido como um dos mais importantes eventos europeus dedicados ao cinema latino-americano, o festival reuniu produções de diferentes países em uma programação voltada à diversidade artística, cultural e política do continente.
Além do reconhecimento do júri internacional, a premiação contempla a aquisição do curta-metragem pela France Télévisions, um dos principais grupos públicos de televisão da França, ampliando as possibilidades de circulação da obra junto ao público francês e consolidando um importante passo na trajetória internacional da produção paraibana.
O prêmio foi concedido por um júri presidido pelo cineasta francês Pierre Salvadori, ao lado de Aurélie Chesné, responsável pela programação de curtas-metragens da France Télévisions, e Diana Borja, integrante da equipe de seleção do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, uma das mais relevantes instituições dedicadas ao formato no mundo.
Como desdobramento da conquista, “Caso Isolado” terá uma exibição especial na Cinémathèque Française, em Paris, no dia 12 de outubro de 2026. A sessão reunirá dois vencedores do Festival de Biarritz: o curta brasileiro e o longa-metragem chileno “Hangar rojo”, dirigido por Juan Pablo Sallato, vencedor do Abrazo de Melhor Filme e do Prêmio do Público. A apresentação será conduzida por Jean-Christophe Berjon, delegado-geral do Festival Biarritz Amérique Latine, reforçando a visibilidade alcançada pelas obras premiadas.
A participação em Biarritz também resultou em repercussão na crítica cinematográfica francesa. Em artigo publicado no Le Club de Mediapart, o crítico Cédric Lépine destacou a perspicácia com que “Caso Isolado” articula preconceito racial e desigualdade social, ressaltando a direção de Jamila Facury e Edson Lemos Akatoy, a centralidade das interpretações e a coerência entre o espaço urbano, as relações humanas e o posicionamento político da narrativa.
Uma reflexão sobre identidade racial, colorismo e desigualdade de classe
Filmado em João Pessoa, na Paraíba, “Caso Isolado” acompanha Cristina (Jamila Facury), uma mulher negra de pele clara que, após um acidente envolvendo o entregador da empresa onde trabalha, assume temporariamente as entregas de cosméticos pela cidade. Ao percorrer bairros mais abastados, enfrenta situações de discriminação racial e de classe que revelam contradições de sua própria experiência: enquanto sofre os efeitos do preconceito, também reproduz, inconscientemente, comportamentos discriminatórios.
Por meio de uma narrativa que combina observação social e tensões cotidianas, o filme investiga as ambiguidades do colorismo, as relações de pertencimento e as manifestações do racismo estrutural no Brasil contemporâneo. A obra propõe uma reflexão sobre como as hierarquias raciais e sociais atravessam tanto a percepção do outro quanto a construção da própria identidade.
“Caso Isolado” marca a segunda parceria de Jamila Facury na direção com Edson Lemos Akatoy, também responsável pela montagem e colorimetria. Os realizadores trabalharam anteriormente no curta-metragem “Quando Sair Lá Fora Serei Ana” (2025), vencedor do “PAOA” de Melhor Curta-Metragem Latino-Americano no 37º Festival Internacional de Cine de Viña del Mar (FICVIÑA), no Chile.
O elenco reúne ainda Cely Farias, integrante de “O Agente Secreto” (2025), de Kleber Mendonça Filho, e Ingrid Trigueiro, conhecida por trabalhos como “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles, e “Manas” (2025), de Mariana Brennand.
Produzido pela Tecelã Filmes e Restinga Filmes, em coprodução com a Filmes Urgentes, o curta foi realizado em janeiro de 2026, com produção executiva de Deborah Abreu, direção de produção de Gabriela Arruda e fotografia de Marcelo Quixaba. Viabilizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio da Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba, o projeto mobilizou mais de 30 profissionais do audiovisual.