"Caso Isolado"

Tecelã Filmes, Restinga Filmes, Filmes Urgentes

Ficção, Drama, 23 min, 2026

Direção: Edson Lemos Akatoy, Jamila Facury

 

35º Festival Biarritz Amérique Latine / França

ABRAZO DU MEILLEUR COURT-MÉTRAGE (Biarritz)

28º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte / Brasil

36º Festival Ibero-Americano de Cinema – Cine Ceará / Brasil

31º Festival Internacional de Cine de Zaragoza / Espanha

 

Após um acidente envolvendo um entregador de seu local de trabalho, Cristina, uma mulher negra de pele clara, começa a entregar cosméticos em João Pessoa. Ao percorrer a cidade, encontros cotidianos expõem as tensões em torno da percepção racial, do sentimento de pertencimento e do colorismo no Brasil contemporâneo.

 

“AN ISOLATED INCIDENT” – After an accident involving a delivery driver from her workplace, Cristina, a light-skinned Black woman, begins delivering cosmetics across João Pessoa. As she moves through the city, everyday encounters expose tensions surrounding racial perception, belonging, and colorism in contemporary Brazil.

Em Caso Isolado, com roteiro e protagonismo de Jamila Facury e direção assinada por ela ao lado de Edson Lemos Akatoy, a narrativa constrói sua força na sutileza. O filme nos atinge aos poucos, tensionando nosso senso de humanidade por meio de doses quase imperceptíveis de desconforto. Cristina, espelho do espectador, aprende a engolir em seco as “pequenas” violências, relevando-as como se fossem, de fato, apenas um caso isolado — algo que não valeria o desgaste. No entanto, é justamente essa repetição cotidiana, atravessada pelo cansaço do trabalho exaustivo, que naturaliza o inaceitável.

A obra evidencia como o racismo se infiltra de forma silenciosa, muitas vezes praticado sem consciência por aqueles que também ocupam posições subalternizadas, mas que reproduzem, por osmose, a lógica perversa do racismo estrutural. A sequência de constrangimentos no apartamento deixa um amargor persistente, rompido brevemente por um instante de respiro no elevador: ali, o olhar de uma mulher negra reconhece Cristina em sua humanidade plena, e não como mera serviçal. É um gesto simples, mas carregado de significado.

Caso Isolado expõe uma engrenagem social tão enraizada que só é nomeada quando atinge extremos — como se tudo o que vem antes pudesse ser relativizado. Na cena final, dentro do ônibus, o filme alcança seu ápice emocional: ao refletir os sonhos de uma Cristina do passado na imagem de uma criança que se coroa, confiante de sua igualdade, somos confrontados com a distância brutal entre esperança e realidade. E essa imagem, inevitavelmente, carrega o peso de uma constatação racial que a sociedade insiste em não encarar.

– Monya Urueña – Professora de Letras (Unipê)

Cristina realiza entregas de produtos cosméticos na cidade de João Pessoa, no Brasil, e, à medida que avança por bairros mais abastados, precisa enfrentar a discriminação de classe e o preconceito em relação à cor de sua pele — discriminação que ela própria, enquanto mulher mestiça, reproduz inconscientemente.

Com uma escrita fluida, a serviço de sua temática, Caso Isolado aborda a discriminação de classe associada à cor da pele no Brasil, a partir de uma geografia urbana pela qual a protagonista transita. Esta, interpretada também por Jamila Facury, não está, a princípio, isenta de preconceitos discriminatórios, em razão de sua condição intermediária como jovem mulher mestiça. Assim, o filme aborda com grande perspicácia a herança de um racismo oriundo de uma história brasileira na qual a escravidão contribuiu profundamente para moldar os rumos do país. O racismo no Brasil tornou-se, portanto, estrutural, atravessando diferentes classes sociais e associando-se, ao mesmo tempo, ao desprezo de classe, como o curta-metragem ilustra com agudeza.

Sem dúvida, “Caso Isolado” se beneficia de uma direção cinematográfica assinada por Jamila Facury e Edson Lemos Akatoy que coloca a interpretação dos diferentes personagens no centro da trama, ao mesmo tempo que os faz transitar por um espaço geográfico urbano, a partir de um posicionamento político bem definido, conferindo plena coerência à encenação.

– Cédric Lépine – Le Club de Mediapart

Roteiro: Jamila Facury

Direção: Jamila Facury, Edson Lemos Akatoy

Assistência de Direção: Anabí Pinheiro

Elenco Principal: Jamila Facury, Cely Farias, Ingrid Trigueiro

Preparação de Elenco: Clébia Sousa

Produção Executiva: Deborah Abreu

Assistência de Executiva: Raphael Aragão

Continuidade: Deyse Plácido

Direção de Produção: Gabriela Arruda

Assistência de Produção: Matheus Bandeira

Direção de Fotografia: Marcelo Quixaba

1ª Assistência de Câmera / Foco: Marla Melo

2ª Assistência de Câmera: Raiz Santos

Maquinaria e Elétrica: Pedro Marques

Assistência de Gaffer: Lucio Dipa

Som Direto: Janaína Lacerda

Microfonia: Bruna Maria

Direção de Arte: Arlinda Trindade, Yuri Fechner

Figurino: Maria Botelho

Maquiagem: Williams Munhoz, Ruth Leite

Montagem e Colorimetria: Edson Lemos Akatoy

Edição e Mixagem de Som: Marina Silva

Trilha Sonora: Erick de Almeida, Kevin Melo

Making Of: Nila Oliveira

Acessibilidade: CPL Acessibilidade

Contabilidade: Altezza Contábil