Protagonizado e dirigido por Jamila Facury ao lado de Edson Lemos Akatoy, filme sobre percepção racial e colorismo integra a Competição Oficial de Curtas-Metragens do festival francês
O cinema paraibano chega à França com “Caso Isolado”, curta-metragem protagonizado, escrito e dirigido por Jamila Facury, com codireção e montagem de Edson Lemos Akatoy. O filme realiza sua estreia europeia no 35º Festival Biarritz Amérique Latine, um dos principais eventos europeus dedicados à cinematografia e à cultura latino-americana, realizado entre 26 de setembro e 2 de outubro, na França.
Selecionado para a Competição Oficial de Curtas-Metragens, Caso Isolado acompanha Cristina, uma mulher negra de pele clara que, após um acidente envolvendo um entregador de seu local de trabalho, passa a realizar entregas de cosméticos pela cidade de João Pessoa. Em seus deslocamentos, encontros aparentemente corriqueiros revelam tensões relacionadas à percepção racial, ao pertencimento e ao colorismo no Brasil contemporâneo.
A sutileza com que o filme aborda essas questões foi destacada pela professora e tradutora Monya Urueña. Caso Isolado coloca o espectador diante de situações muitas vezes naturalizadas socialmente, explorando justamente a fronteira entre aquilo que é tratado como um episódio banal e aquilo que revela uma estrutura persistente de desigualdade:
Em Caso Isolado, a narrativa constrói sua força na sutileza. O filme nos atinge aos poucos, tensionando nosso senso de humanidade por meio de doses quase imperceptíveis de desconforto. Cristina, espelho do espectador, aprende a engolir em seco as “pequenas” violências, relevando-as como se fossem, de fato, apenas um caso isolado — algo que não valeria o desgaste. No entanto, é justamente essa repetição cotidiana, atravessada pelo cansaço do trabalho exaustivo, que naturaliza o inaceitável.
A obra evidencia como o racismo se infiltra de forma silenciosa, muitas vezes praticado sem consciência por aqueles que também ocupam posições subalternizadas, mas que reproduzem, por osmose, a lógica perversa do racismo estrutural. Caso Isolado expõe uma engrenagem social tão enraizada que só é nomeada quando atinge extremos — como se tudo o que vem antes pudesse ser relativizado.
À frente do filme está a atriz e realizadora paraibana Jamila Facury, graduada em Teatro e Letras – Francês pela UFPB. No cinema, integrou o elenco de produções como “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e “Corpo de Paz” (2025), de Torquato Joel, além do telefilme “O Sertão Vai Vir ao Mar” (2024), exibido pela TV Globo.
Jamila estreou na direção com “Quando Sair Lá Fora Serei Ana” (2025), curta-metragem vencedor do prêmio de Melhor Curta Latino-Americano no 37º Festival Internacional de Cine de Viña del Mar (FICVIÑA), no Chile. Agora, com Caso Isolado, volta a trabalhar em parceria com Edson Lemos Akatoy e amplia sua trajetória internacional com a chegada do filme a Biarritz. A produção conta no elenco com Cely Farias (“O Agente Secreto”) e Ingrid Trigueiro (“Manas”).
Produzido pela Tecelã Filmes e Restinga Filmes, em coprodução com a Filmes Urgentes, a passagem pela França acontece após outra importante conquista internacional do curta. Na Argentina, Caso Isolado recebeu o prêmio de Melhor Fotografia na quarta edição do Festival Internacional de Cine de la Provincia de Buenos Aires (FICPBA), realizada em La Plata. O reconhecimento foi concedido ao trabalho do diretor de fotografia paraibano Marcelo Quixaba, responsável pela construção visual do filme.